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Revista Escripturas

          O Oxford Latin Dictionary define que o termo latino scriptüra implica na atividade, processo ou maneiras de se atribuir formas para as letras e palavras. Inclusive, também em sua dimensão oral. Sendo assim, escrituras são sinais pertencentes ao léxico gramatical usadas, principalmente, em textos que compõem documentos e englobam a arte de composição literária e autoral. O Glossarium Mediae et Infimae Latinitatis apresenta diversos significados do termo, como, por exemplo, scriptura divina, scriptura legalis, scriptura reditoria, scriptura (charta) e scriptura (scripta), demonstrando, portanto, seus diversos significados. A adaptação do latim para língua portuguesa gera diversas maneiras de grafar o verbete. No Dictionarium ex Lusitanico in latinum sermonem, publicado em 1569 por Jerônimo Cardoso, aparece registrado "Escretura" tendo como paralelo a forma latina supracitada. Em 1728 ao publicar o Vocabulario Portuguez & Latino o padre Raphael Bluteau compilou a palavra "Escritura", preservando os mesmos significados. A forma de Bluteau permanece inalterada na tradição dicionarística da língua portuguesa nas principais obras até a primeira metade do século XIX, a exemplo do Diccionario da Lingua Portugueza (1789), de Antônio Moraes Silva, e no Diccionario da Lingua Brasileira (1832), de Luiz Maria da Silva Pinto, até que o Grande Diccionario Portuguez ou Thezouro da Lingua Portugueza, publicado em 1871 pelo frei Domingos Vieira, que apresenta a forma híbrida "Escriptura".

             Em sua grafia contemporânea, "escritura" está correlacionada a documentos jurídicos, decretos, testemunhos ou registros que possuem valor considerado verossímil ou, no campo teológico, normas e saberes místicos. Desta forma, levando em conta a riqueza e pluralidade de significados deste vocábulo, Escripturas, intitula o nome deste periódico eletrônico de História da Universidade de Pernambuco, campus Petrolina. O objetivo desta revista é criar um espaço de divulgação de pesquisas acadêmicas em História que prime pelo diálogo entre seus diversos domínios com uso amplo da interdisciplinaridade.

        Conforme salienta Paul Ricoeur, filósofo francês ligado a tradição da teoria hermenêutica, o trabalho básico de um historiador consiste em articular diálogos entre gerações. Trata-se de mapear as rupturas de comportamentos, as mudanças de costumes, mas também de analisar como distintas gerações velam pelas tradições, pelas continuidades. A escrita da história, a partir dessa ótica, é um elemento mediador entre vivos e mortos e está embasada na interpretação e problematização de vestígios encontrados em acervos, arquivos, bibliotecas etc. A narrativa que o historiador constrói busca compreender os feitos humanos em diferentes contextos temporais. O historiador faz o papel de intercessor entre as inquietações vividas no presente e a morte, ou seja, com aquilo que já sucumbiu e habita os domínios do passado, pois “as vidas humanas têm necessidade e merecem ser contadas” (Ricoeur, 1994 : 116).

               Em importante ensaio sobre a construção do conhecimento histórico, Michel de Certeau (2007 : 65-119) salienta que o ato de contextualizar é essencial para a prática historiográfica. Atento para as relações de poder que margeiam as disputas institucionais em torno dos discursos sobre o passado, Certeau postula que a escrita da história se articula com um lugar, uma prática e uma escrita. Isso significa que toda produção acadêmica que investiga as relações entre tempo e sociedades mantém vínculos com subjetividades políticas, culturais e sociais; que há regras técnicas que possibilitam controlar as tensões entre história e ficção e que, de modo geral, a escrita historiográfica pleiteia formas de reconhecimento que apenas são atribuídas para estudos pautados em procedimentos teóricos e metodológicos consistentes. A escrita historiográfica tem, portanto, particularidades que possibilitam que as experiências humanas do passado se tornem inteligíveis para as pessoas que estão navegando no tempo presente. Por meio de uma série de atitudes epistemológicas que dão a narrativa sobre o vivido humano o status de conhecimento amparado em fundamentos éticos e científicos. Trata-se de levar a sério as considerações do historiador italiano Carlo Ginzburg (2009: 18-20), quando o autor sugere que o interesse pelas pesquisas sobre as relações entre história e memória não deve se contentar em tratar o testemunho histórico em sua fidedignidade – ou seja: averiguar se este é falso ou verdadeiro. É necessário também considerar a sua pertinência diante de questões políticas e morais.

          Essas reflexões serviram como diretrizes teóricas para a criação da revista Escripturas e orientam suas políticas editoriais até o presente momento. A revista originou-se no ano de 2017, como parte da reformulação ocorrida nos últimos anos no curso de História da Universidade de Pernambuco, campus Petrolina. Um quadro de profissionais bastante diverso, de formação acadêmica nas mais importantes universidades do país e com experiência em todos recortes tradicionais da História, junto de pesquisadores colaboradores de outras instituições importantes, tem dado suporte para que esta revista contribua cientificamente para a integração dos diversos domínios da História com outras áreas das Ciências Humanas, ressaltando propostas inovadoras e a interdisciplinaridade das pesquisas.

BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712 - 1728. 8 v. Disponível em <<http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/edicao/1>>. Acesso em 10 março 2017.

CARDOSO, Jerónimo, 1508-1569. Hieronymi Cardosi Lamacensis Dictionarium ex Lusitanico in latinum sermonem. - Ulissypone : ex officina Ioannis Aluari, 1562. - 105 [i.é 104] f. ; 4º (20 cm). Disponível em <<http://purl.pt/15192>>. Acesso em 10 março 2017.

GLARE, P. G. W. Oxford Latin Dictionary. London: Oxford University Press: Clarendon Press, 1968.

Glossarium Mediae et Infimae Latinitatis (Domino Du Cange). Tomus septimus (R-S). Niort, L. Favre, Imprimeur-Éditeur, 1886, p. 370-371.

PINTO, Luiz Maria da Silva. Diccionario da Lingua Brasileira por Luiz Maria da Silva Pinto, natural da Provincia de Goyaz. Na Typographia de Silva, 1832. Disponível em <<http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/edicao/3>>. Acesso em 10 março 2017.

SILVA, Antonio Moraes. Diccionario da lingua portugueza - recompilado dos vocabularios impressos ate agora, e nesta segunda edição novamente emendado e muito acrescentado, por ANTONIO DE MORAES SILVA. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. Disponível em <<http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/edicao/2>>. Acesso em 10 março 2017.

VIEIRA, Dr. Frei Domingos. Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza. Porto: Em Casa dos Editores Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1871. Disponível em <<https://bibdig.biblioteca.unesp.br/handle/10/28254>>. Acesso em 10 março 2017.

CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: A escrita da história. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

GINZBURG, Carlo. Memória e globalização. Tradução de Henrique Espada Lima. In: Revista Esboços. Vol. 16, nº 21, Florianópolis, UFSC, 2009.

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: Tomo I. São Paulo: Papirus, 1994.

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